Essa performance foi a primeira do semestre e venho através desse relato, detalhar um pouco dessa experiencia.
A performance se chamava Morfeu exatamente por isso, sonhos, que a maioria das vezes nos remete a dormir, que nos remete a nosso quartinho, que nos remete a nossa caminha. Esse nome foi dado pelo Lazaro, que adora mitologia por sinal. Nessa performance tínhamos que estar deitados pelo corredores do prédio branco, mais conhecido como prédio de direto, nossos fãs da UVV, onde cada um tinha que fazer alguma ação que faz antes de dormir ou enquanto dorme.
Até o horário da aula eu não sabia o sentido da performance, não que a performance tinha que ter um sentido, mas eu não tinha achado um sentido pra mim. Comecei a conversar com os colegas de sala pra tentar entender a proposta, e iriamos apenas sentar no corredor da UVV e cada um tinha que fazer a atividade "designada", queríamos causar um estranhamento as pessoas que ali passavam e isso me fez pensar. Fazer com que as pessoas pensem, causar um estranhamento, causar um questionamento, problematização é ótimo, é uma ótima forma de usar a arte.
Eu praticamente não sabia o que cada um ali iria fazer, eu sabia que eu iria ter que convidar as pessoas para deitar comigo. Mesmo antes de entender, na construção de um personagem pra performance (não precisa ter um personagem pra performance, as vezes nem super planejada precisa ser, mas eu precisava planejar), eu decidi ser uma criança. Não exatamente uma criança, mas alguma pessoa que tivesse algum tipo de "problema" que tivesse uma imaginação que fosse fluindo. Eu poderia ser quem eu quisesse, literalmente. Meu dever era chamar as pessoas para deitarem comigo, eu poderia ser um cachorro pedindo carinho, poderia ser uma prostituta chamando alguém pra deixar com ela, usando uma lingerie vermelha bem forte (cogitei essa possibilidade e foi uma coisa que me deu vontade de fazer, seria uma coisa totalmente diferente do que eu sou, ainda mais pela timidez e quase não falar, usar uma coisa que marcasse o meu corpo, que por sinal morro de vergonha de mostrar o meu corpo, me fez ter vontade de viver uma personagem assim, só que pensarei bem e o fato de ser uma ambiente onde eu estudo e teria que conviver com aquelas pessoas pelos corredores todos os dois, me fez recuar. Pensei nos adjetivos que iria ouvir por estar a cima do peso, pensei no que Lazaro iria achar também, se ele ficaria com ciumes ou preocupado com o que poderia acontecer se alguém deitasse ali, talvez até ajudaria na cena dele de ficar pensando em uma noite de insonia. Tive medo do que poderiam fazer comigo se alguém deitasse comigo com tais vestimentas também), poderia ser.. sei lá, qualquer coisa que eu quisesse, eu estava livre pra embarcar nisso.
Eu fiz a "criança" mesmo, não tenho outro nome melhor pra falar. Quando eu comecei e senti um frio na barriga, uma coisa dentro de mim inexplicável. Tava com medo mas ao mesmo tempo animada. Eu tinha medo de dormir sozinha, chama as pessoas para deitar comigo naquele colchão e realmente queria sair daquele mundo. Todo mundo que deitava comigo eu não queria que eles, ou eu, pensassem que estavam em um corredor da faculdade, mas sim em uma casa onde desse pra vê as estrelas, contava meus medos, sempre ouvia passos mas nunca ninguém chegava, eu viva sozinha. triste. Eu queria alguém ali pra conversar, me da um abraço, contar uma historia. Dizia que tinha um amigo imaginário que tinha formas diferentes, cara de elegante. Ficava fascinada quando alguém embarcava nesse meu imaginário. Mas nem todos faziam isso, Eu perguntava se estavam vendo estrelas e escuta "não", seco e nem ao menos tentar enxergar. Ou pessoas que só deitavam porque queriam descansar. Vinha pessoas filmando e sentava pra querer saber o que era aquilo enquanto riam. Outras sentiam dó por eu estar ali sentada e ninguém querendo deitar comigo. Lembro que um amigo meu passou e eu poderia jurar que ele ia sentar comigo, não tinha ninguém no corredor aquele horário, só ele passando, e eu pedi que ele sentasse comigo e ele negou, eu gritei implorando e ele virou as costas e saiu. Juro que tudo que senti na hora foi vontade de chorar, aquilo me trouxe uma emoção, uma energia, uma vontade de ficar ali chorando, sem ninguém. Lembro que gritei de uma forma que não consigo descrever, mas já ouvia a tristeza ali dentro. Engoli o choro. Pessoas começaram a passar e eu as chamava, até que por alguns comentários me fizeram rir e aquela tristeza então já tinha ido embora.
Eu estava com um pijame de Frozen, um filme infantil bem famoso, tudo bem infantil. Mas ouvi comentários do tipo "não deito porque tenho namorada", "se minha mulher souber eu to frito", "se eu deitar vai da merda", "se eu deitar não vai prestar". Apesar de comentários assim eu não tive nenhuma especia de desrespeito, eram comentários vazios que não me afetaram, até me fez me sentir um pouco mais bonitinha no momento. Todos que deitaram ou sentaram me tratam super bem, com total respeito. Ganhei abraços e até conselhos pra não ficar triste e nem me sentir sozinha.
Já estava na hora de ir quando dois meninos sentaram ali, um eu já conhecia, outro mais ou menos, só que eles me tratavam como se não me conhecessem e conversaram mesmo com o personagem. Apesar de conhece-los, não tenho nada de intimidade com nenhum deles. Um deles estudava na mesma escola que eu só que não eramos amigos ou nem nos falávamos. Quando eu embarcou em tudo que eu falava, ele viajava junto, ele me fazia querer viajar mais e querer pensar mais e querer viver mais aquilo, aqueles pensamentos loucos. Ele me fez realmente improvisar coisas que nem 1/3 eu tinha conseguido com todas as outras pessoas que ali deitaram/sentaram comigo.
A experiência como algo da ordem do vivencial. Em performance, é a colocação do corpo em ação. É o ato e o que ele imprime no seu corpo (ou faz brotar) como sensação, percepção, conscientização. O corpo do performer e também os corpos de quem o assiste são experimentados em um contato recíproco. Sendo assim, a ação é, ao mesmo tempo, reação: a ação é pré-concebida pelo performer que, ao realizá-la, está submetendo seu corpo ao impacto da presença e da resposta dos outros corpos e reagindo aos mesmos. Corpo a corpo. (P A I M , C l a u d i a . “ E v i d ê n c i a s d o c o r p o ” . 2 0 1 0)
Lembro que Anna estava bem na saída da rampa com o Kurt, seu filho de apenas meses de idade em seus braços e ela pedia silencio pra todos que passavam enquanto insinuava que estava fazendo o bebe dormir. Uma coisa que ouvi dessa cena era que as pessoas achavam que tudo era de verdade, não era cena, mas que a UVV estava abrigando pessoas, principalmente por ser um dia de chuva. Isso me trouxe uma certa indignação, de pensar que eramos pessoas de rua.
Ismael acordava a todo instante tendo pesadelo. Essa era a que eu queria escolher, mas fiquei feliz com a de chamar as pessoas. Acho que ele foi um pouco teatral em alguns momentos, mas ele se saiu muito bem.
Sarah tava bem próximo a mim e eu ouvia ela cantar, era bonito pra mim, ainda mais por ter que viajar mesmo na imaginação, acho que a musica me ajudou. Eu costumo ouvir bastante musica e cada vez eu viajo pra um lugar diferente ouvindo. Sarah em meio as criticas e as pessoas passando aqui e comentando e zoando, ela não parou de cantar em nenhum momento, era bonito.
Iasmin tinha que rir, não sei como ela conseguiu rir sem parar. Eu não sei se eu conseguiria, até porque minha risada é horrível e teria uma leve vergonha de rir, pareço que to engasgando enquanto eu fico rindo. Ela teve um trabalho enorme de fala interna ali, pra poder sustentar aquele tempo todo.
Lazaro ficava pensativo e ouvindo musica, jogava um bolinha pra cima. Eu conheço Lazaro, acho que ele não é do tipo que pensa assim, não quando ta com insonia. Quando eu ligo pra ele a noite ele sempre ta assistindo TV. E ele não é tão calmo como as pessoas pensam. Acho que talvez em um local sem TV, ele pudesse pensar daquela forma, com aquela bola na mão pra mostrar sua ansiedade, angustia, nervosismo. Acho que ele fez um bom trabalho pra se sustentar na cena ali.
Marcela assustava todo mundo. Achei isso tão criativo. De onde eu estava só dava pra vê as pessoas levando um susto, o que era engraçado pra mim, as vezes tinha vontade de rir.
Yule e Jeferson andava pelos corredores encenando a violência contra a mulher, tanto de namorados, desconhecidos e até mesmo maridos. Todas as vezes que eles passavam por mim ou que eu conseguia enxerga-los eu me arrepiava, era forte a cena. Quando ele falaram que tinham pessoas que concordavam com a violência ou incentivavam a continuar, ou que mulher tinha que apanhar, me trouxe uma revolta. Enquanto eu, que chama as pessoas para deitar comigo, não tive nenhum tipo de insulto ou desrespeito, mas eles, que estavam ali com um ponto de vista totalmente diferente do meu, as pessoas concordavam com tal índole, tal desrespeito, tal má fé.
Não pude vê a Rafa e nem a Naiara com o Vini, mas eram as que eu queria ter visto. Rafa tinha que fazer posições diferentes enquanto dormir. Me idêntico com isso de não parar quieta na cama, eu me bato o tempo todo, as vezes soco minha mão na parede a noite mexendo e dou uma pulos na cama na hora de virar, acordo em uma posição totalmente diferente. Ela fez posições divertidas e de elasticidade. Acho que esse papel foi perfeito pra ela.
Naiara e Vinicius foi uma das cenas mais fortes. Vinicius se masturbava enquanto Naiara se pintava de vermelho e ia de acordo com o que Vinicius falava. Falava sobre o abuso também e poderia ter entendido da forma que cada um enxergasse. Foi bem forte a cena. Ouvi relatos que as pessoas paravam e se assustavam e ficavam um tempo ali olhando. Vinicius elogiou Naiara e disse que ela foi uma verdadeira parceira em cena. E acho que esse é o papel do performer, ele tem que estar preparado pra tudo, as coisas mudam e no decorrer da performance pode até começar a ter outros significados e, sem duvida, novos estímulos. Temos que ser sempre um "ótimo parceiro", temos que sempre está aberto a qualquer tipo de dificuldade.
Ouvimos comentários ofensivos sobre o curso "esse povinho de artes cênicas", "vocês não estudam?", e várias outras coisas, como se fossemos vagabundos e só estávamos ali pra brincar. Não me importei com isso. Fiquei orgulhosa de todos ali, ficamos ali até o final, mesmo sendo insultado, mal olhado. Fizemos o que fizemos por amor.
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