Quando chegamos foi bem diferente dessa vez, eles estavam mais dispostos e receptivos, alguns ainda com sono mas outros nem tanto assim. Como eles estavam sendo obrigados a sair dos quartos eles já ficavam emburrados, então de certa forma já tinham um bloqueio ali. Tínhamos planejado trabalhar individualmente com eles, sobre historia deles. Então a primeira pessoa que conversamos foi Maria, ela estava sentada sozinha na mesa e então fomos até ela e perguntamos sobre alguma coisa do passado, do que eles já tinham feito e deixamos que ela falasse, confiasse na gente.
Ela contou de quando era mais nova, da sua infância, de um passeio que ela fez na escola, que ela foi pra Matilde, que ela gostava muito da professora, que ela conheceu o convento da Penha, que ela foi a Praia, e ela sorria ao contar, ela estava feliz em lembrar, era uma coisa que ela ficava alegre em contar, apesar de nunca mais ter ido a praia. Uma outra moça que conversamos ela era bem comunicativa, contou as coisas sem nenhum problema, só queria voltar para o quarto logo, contou sobre os filhos, sobre as dores que ela sentia, sobre sua coluna. Outros contavam sobre coisas do momento mesmo, ou então nem queriam contar sobre, reclamavam que não queria mais ficar ali. Terezinha só falava que estava com fome, pedia almoço ou alguma coisa para comer. Ela não tem filtro do que falar, o que chega a ser engraçado, em alguns momentos ela me lembra minha avo, que se chama Terezinha também, como o fato de falar o que ela quiser, ela fala mesmo, se ta feio, se ta bonito, se tem que mudar, se tem que calar a boca, ela fala.
Eles são bem sinceros, quando perguntamos se eles estão bem eles respondem a verdade mesmo, não são como nós que fingimos que sempre estar tudo bem, eles falam "não" ou "vai melhorar" ou "quero sair daqui", essas coisas.
O que viveu mais não é aquele que viveu até uma idade avançada, mas aquele que mais sentiu na vida.

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